Roteiro das Casas com Histórias do Curral das Freiras
Igreja paroquial de Nossa Senhora do Livramento
Caminho da Igreja
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Sitio: Casas Próximas
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Função: Culto católico
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Proprietários: Diocese do Funchal
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História:
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A origem desta igreja paroquial está intimamente ligada ao convento de Santa Clara no Funchal, ao qual a partir de 1480 pertenceram as terras do Curral. Assim se explica a atribuição do nome “Curral das Freiras” que identifica as terras destinadas à criação de gado, propriedade da principal casa religiosa feminina da cidade. Daqui provinham a carne e a manteiga consumidos no convento.

Arq. ACH, 2019

Convento de Santa Clara, Funchal. Dillon, Frank, Londres, 1850. Casa-Museu Frederico de Freitas
Afastada e de difícil acesso, esta localidade estava então integrada na paróquia de Santo António do Funchal, cuja distância impunha um inegável isolamento espiritual. Na primeira metade do séc. 17, foi erigida a capela de Santo António, que pelo menos em 1644 estava concluída e ficou pertença do Convento de Santa Clara. Já degradada no séc. 18, dela resta apenas o registo na toponímia do sítio da Capela e a memória de quem ainda se refere à sua antiga localização como “campo santo”.
Era ocasionalmente dotada de capelão permanente, por vezes com residência fixa, pelo que a população se foi gradualmente habituando a uma certa autonomia relativamente à freguesia de Santo António no Funchal, na qual estava integrada. Por volta de 1780 o Curral passou a ter vida paroquial própria e em 17 de março de 1790, por Carta Régia de D. Maria I, assumiu o estatuto de paróquia independente. A construção da nova igreja dedicada a Nossa Senhora do Livramento, sobre terrenos doados à Diocese em 1787 pelo convento de Santa Clara, denominou as proximidades de sítio das "Casas Próximas”.
Em meados e finais do séc. 19, as imagens mostram como o casario deste sítio era ainda pouco denso. A concentração da habitação e comércio nas “Casas Próximas” intensifica-se nas primeiras décadas do século 20.

Imagem cedida à ACH pela Casa-Museu Frederico de Freitas

Museu de Fotografia da Madeira

Imagem cedida à ACH pela Casa-Museu Frederico de Freitas
Pela sua localização, a igreja tornou-se desde logo o centro da freguesia. Na casa paroquial pernoitavam, antes da ligação rodoviária à cidade, muitos dos atravessavam o Curral das Freiras pelo Caminho Real nº 27, que ligava o Funchal à Boaventura, no norte da ilha.
A igreja e a casa paroquial beneficiaram de várias reparações e alterações ao longo dos tempos.
Os altares laterais mandados construir pelas confrarias da Senhora do Livramento e do Sagrado Coração de Jesus datam de 1916 e o altar-mor de 1917. O altar de Santo Antão, ao fundo da parte nova da igreja, é de 1951 e o teto do templo foi pintado em 1953 por Alfredo Bernes, que seguiu o trabalho artístico do seu pai, o conhecido Luís Bernes.

Arq. ACH, 2018
Mas é a imagem da padroeira, Nossa Senhora do Livramento, que mais atrai as atenções e as orações de quem entra nesta igreja.
A festa de Nossa Senhora do Livramento, que se realiza no último domingo de agosto, era das mais concorridas da Madeira, atraindo muitos romeiros do norte e do sul da ilha.
Em cada festa, a imagem é colocada no andor no sábado de manhã e adornada, bem como a do Menino Jesus, com o seu ouro que representa tantas promessas e agradecimentos por graças recebidas ao longo dos tempos, e com as suas vestes festivas. Depois da novena no sábado à noite, seguida de animado arraial pela noite dentro, o momento alto é a Missa da festa e a procissão, no domingo.

Arq. ACH, 2018

Arq. ACH, 2018
Também vivida com fervor pelos habitantes do Curral mas atraindo menos forasteiros é a festa do Santíssimo Sacramento, no penúltimo domingo de agosto. O magnífico tapete de flores preparado durante a Missa da festa segue todo o percurso da procissão, até à Bica. Nos anos da pandemia, não se realizando a procissão no formato habitual, os festejos foram celebrados em cada sítio da freguesia, multiplicando-se os altares e os tapetes de flores.

Arq. ACH. Colmeal e Igreja Paroquial, 2021

Arq. ACH. Colmeal e Igreja Paroquial, 2021
Muito participadas nestas duas festas são as tradicionais e animadas romagens, que no sábado à tarde percorrem cantando e dançando os caminhos da freguesia seguidas pela banda de música – numa das festas, os sítios “de cima”, na outra os sítios “de baixo” – trazendo ofertas para a igreja, que são depois leiloadas no adro, antes da novena, revertendo o produto das vendas para a paróquia.

Arq. ACH. 2017

Arq. ACH. 2017
Além destas, conhecidas pelas “festas de agosto”, momento de regresso de muitos emigrantes e de reencontros familiares, a paróquia do Curral das Freiras assinala outras datas festivas, entre outras, em honra de Santo Antão e de São Cristóvão. Mas especialmente vividas são as festividades do Natal e as tradicionais visitas do Espírito Santo.
O Natal, que na Madeira se designa “a Festa”, prolonga-se ao longo de dezembro e ainda em janeiro, com o cantar dos Reis. Mas é nas Missas do Parto que, nas nove madrugadas que antecedem a noite de Natal, os habitantes do Curral se encontram e enchem a igreja de alegria, entoando cânticos tradicionais cujas origens se perdem no tempo. Depois das missas, há convívio no adro, trocando-se broas e licores. Admira-se o presépio da igreja, em cada ano a cargo de um sítio da freguesia, e ali perto o mega-presépio que já há vários anos é realizado pela Associação O Refúgio da Freira, atraindo muitos visitantes durante esta quadra.

Arq. ACH. 2021
Depois das celebrações da Quaresma e da Semana Santa, nos domingos depois da Páscoa a visita do Espírito Santo chega às casas de todos, percorrendo cada sítio da freguesia. Embora com algumas adaptações em relação às práticas do passado, as visitas do Espírito Santo mantêm os elementos essenciais, desde logo as saloias engalanadas e os seus cantares.

Arq. ACH. 2019
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Arq. ACH. Fajã Escura, 2019
No cemitério próximo à igreja repousam os curraleiros falecidos, sempre lembrados pelos seus familiares pelas muitas flores ali colocadas.
Sendo a igreja paroquial o centro da vida desta comunidade, o seu adro foi ponto de encontro dominical para convívio e negócios entre os habitantes dispersos pelos vários sítios da freguesia.
Aqui, depois das missas, lançavam-se “pregões”, anúncios públicos feitos em voz alta, que divulgavam assuntos de interesse particular ou oficial, pelos quais o pregoeiro era gratificado. A prática caiu em desuso com o desenvolvimento das comunicações, mas alguns dos últimos pregoeiros ainda são lembrados nesta freguesia.
Neste adro, calcetado por volta de 1938, tiveram lugar acontecimentos marcantes, como a cerimónia presidida pelo Presidente da República que em 1962 assinalou o termo da eletrificação das freguesias rurais da Madeira, evocada na placa que se encontra afixada na casa paroquial.

Foto Perestrellos, 1962
Apesar de o centro do Curral das Freiras se ter alterado em função de recente arranjo urbanístico, com novas artérias e um novo largo, o adro é ainda hoje ponto de encontro essencial para os habitantes desta freguesia, continuando a sua vida a ser muito marcada pelas festividades e atos de culto centrados na Igreja Paroquial.
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