Roteiro das Casas com Histórias do Curral das Freiras
CASA DO ADRO

Igreja de Nossa Senhora do Livramento, freguesia do Curral das Freiras. Anterior a 1895
MFM-AV, Inv. JAS/144, em depósito no ABM
Até ao séc. 19, o Curral das Freiras era propriedade do Convento de Santa Clara no Funchal, que em 1787 doara as parcelas necessárias para construção da igreja e casa paroquial. Em 1861 foram extintos os conventos femininos em Portugal e os seus bens integrados na Fazenda Nacional em 1862. Os bens rústicos deste Convento são vendidos, originando novos proprietários nesta freguesia, entre os quais José Militão Camacho (1840-1924).
Os terrenos onde se implanta esta casa foram adquiridos por José Militão Camacho, proprietário rural, residente no sítio da Murteira (o primeiro dos “sítios de baixo” desta freguesia e o mais central antes da construção da igreja, pois situava-se no ponto de chegada a este vale a partir da estrada que vinha do Estreito de Câmara de Lobos, a sul; e do Caminho Real n.º 27, entre o Funchal e Boaventura, no norte da ilha).
Neste local existia, segundo a tradição oral, a “venda da Bernarda “, pequena construção que estará na origem da atual.

José Militão Camacho;
José Militão Camacho, que mantém a sua residência na Murteira, promove a exploração agrícola destes terrenos. Uma das produções mais rentáveis era a cidra (fruto utilizado na confeção de doçaria quando cristalizado), que além de consumido na Madeira era exportado para Inglaterra. Cerca de 1896, após o seu segundo casamento, com Leonor Augusta Teixeira Dória, beneficia a casa que se converte em segunda residência da família, aumentando a sua área, acrescentando-lhe um piso e cobrindo-a de telha.
Foi este o início da concentração habitacional no Caminho da Igreja, sítio das Casas Próximas, onde anteriormente apenas se destacavam perto da igreja, entre algumas pequenas construções rurais cobertas de colmo, duas casas cobertas de telha: a casa paroquial e a casa da família Soares Henriques, visíveis na primeira imagem (anterior a 1896).
Após a morte de José Militão Camacho em 1924, nas partilhas entre os seus 6 filhos, esta casa e terrenos adjacentes foram herdados pela filha Bela. Os terrenos a leste destes, herdados pelo filho mais novo, José, residente no Funchal, seriam vendidos, originando algumas das construções do atual Caminho da Igreja, entre as quais a casa da família Rebolo.
A habitação está integrada na propriedade agrícola, que conserva o lagar e o forno exterior, a adega, o pequeno curral e dois poços de água, para além dos tradicionais poios com muros em pedra aparelhada. Após tornar-se a “casa da D. Bela” na década de 1920, foi aumentada para oeste e ganhou 2 janelas sobranceiras ao adro da igreja. Foi-lhe ainda anexa uma pequena edificação, arrendada como bar até aos anos 90. A atividade agrícola manteve-se nos terrenos envolventes, já com outras produções, destacando-se a vinha e as fruteiras.
José Militão Camacho, que durante várias décadas foi regedor da freguesia, teve um papel ativo e relevante nesta comunidade e entre os seus descendentes contam-se algumas personalidades ilustres da Região.

Cónego Manuel Francisco Camacho; arquivo de família
O seu filho Manuel Francisco Camacho (1875-1970) foi uma destacada entidade eclesiástica do seu tempo. Ordenado padre na igreja do Curral das Freiras em 1904, tornou-se cónego da Sé do Funchal e foi depois Vigário-Geral da Diocese, entre 1924 e 1970. Foi reconhecido, entre outras relevantes ações, como verdadeiro diplomata nas relações entre a Igreja católica, o poder civil e a sociedade em geral.
Figura muito respeitada e estimada, Bela Dória Camacho (1896-1981) irmã do anterior, a “Dona Bela“, residiu nesta casa após o seu casamento com Jordão Joaquim de Ornelas em 1914 e aqui nasceram os seus quatro filhos (Filomena, Cecília, Jaime e José). Herda a casa em 1924, ano em que fica viúva e vai residir no Funchal, passando a família no Curral, a que todos continuaram profundamente ligados, os três meses de Verão.

Bela Dória Camacho com os filhos Jaime (de óculos) e José
Vicentes Fotógrafos, 1941; arquivo de família
O seu filho Jaime Ornelas Camacho (1921-2016) tornou-se, em 1997, proprietário da casa, que se mantém na família. Engenheiro civil, com uma carreira ligada a grandes obras públicas na Madeira e Porto Santo - aproveitamentos hidráulicos (levadas), aeroportos do Porto Santo e Madeira, entre outras - foi o primeiro presidente do Governo Regional da Madeira após a consagração da autonomia política e administrativa desta Região Autónoma, em 1976.

Jaime Ornelas Camacho; arquivo de família
